A MORTE ESPREITA NA ESQUINA
CAPITULO 01 - SONHOS INTERROMPIDOS: UM CASO DE AMOR
Mais um dia de trabalho. Em minha sala (cartório) olhei para as prateleiras abarrotadas de procedimentos investigativos em andamento. Consultei minha lista e selecionei um dos casos para trabalhar. Iniciei a leitura.
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O mês de maio já se despedia em seu último dia daquele ano. Rosana foi surpreendida, logo pela manhã, com um telefonema de Carlos, o amor da sua vida. Com a voz toda melosa e sensualmente rouca, Carlos a convidou para sair logo mais à noite. Desde que ele voltara de viagem não foi possível se encontrar e a saudade já apertava o peito que doía demais.
O dia demorou a passar e a ansiedade era grande. Não via a hora de estar com Carlos. Eles haviam se conhecido há pouco tempo, no entanto, foi uma paixão fulminante, avassaladora. Amor à primeira vista, ou melhor, ao primeiro pagode.
A diferença de idade entre eles não importava. Ela tinha 31 e ele 25, mas Rosana o considerava muito mais maduro que ela. Ele era representante comercial de uma empresa que comercializava artigos esportivos e ela era atendente em uma loja de roupas que ficava no Shopping Center.
Eles gostavam das mesmas coisas, curtiam os mesmos programas e torciam para o mesmo time de futebol. Pareciam feitos um para o outro!
Rosana, desde o começo não escondeu de Carlos o seu desejo de se casar. Ela era mãe da Rebeca, que tinha só três aninhos de idade e parecia um anjinho de cabelinho louro e todo encrespadinho. O pai era um safado sem vergonha que foi-se embora com outra nega assim que soube que a Rebequinha ia chegar.
Porém, Carlos era mais jovem, não tinha filhos e ela respeitava o fato de ele não querer pensar em casamento tão cedo. Então, Rosana resolveu curtir o romance sem se preocupar com a seriedade do compromisso.
Fazia questão de tratar o seu gato muito bem e outra mulher como ela, ele jamais encontraria. Rosana aproveitava esses reencontros depois de uns dias sem se verem para mostrar suas qualidades femininas ao homem que era dono do seu coração.
Escolheu uma roupa nova na loja e emprestou algumas peças de semijoias da sua amiga que era a gerente. No final do expediente, pegou uma carona e chegou em casa mais cedo do que de costume.
Foram duas horas de produção intensiva mas o resultado final valeu a pena!
Deu um beijo na mãe e outro na Rebeca e foi logo se despedindo, pois marcou de se encontrar com Carlos no pagode que aconteceria no bairro vizinho. Chamou até um uber para economizar no salto.
Carlos já estava à sua espera e veio logo a seu encontro. Não podia esconder a paixão que sentia por aquela mulher, principalmente quando ela se arrumava toda para ele. Não tirava os olhos dela. Ela estava simplesmente deslumbrante! A paixão encandecia todo o seu corpo com a simples visão da mulher que ele amava.
Rosana era uma beldade. Senhora de uma beleza ímpar. Sorriso maroto e a vida plena estampados na face. No pagode não havia problemas, não havia perturbações. Somente o ritmo e a música fazendo o corpo dançar. Carlos se sentia o homem mais abençoado da Terra por ter aquela mulher do seu lado.
Estavam se divertindo muito, mas Carlos parecia um pouco nervoso. Lá pelas tantas da noite, chamou Rosana de canto e se ajoelhou aos seus pés. Com uma expressão séria, tirou algo do bolso. Era uma caixinha preta que estendeu para a mulher, oferecendo-lhe. Era uma aliança dourada. Solenemente fez o seu pedido de casamento. Já não podia viver sem ela. Queria fazer daquela a sua mulher, a sua esposa, a mãe de seus filhos. Estava decidido.
Rosana não podia acreditar!
Era tudo o que ela queria!
Assim que ele colocou a aliança em seu dedo, ela o abraçou forte e trocaram juras de amor eterno.
Apaixonados, resolveram ir pra casa dela onde passariam a noite juntos. A primeira noite de casados já que não pretendiam se casar legalmente.
De mãos dadas, foram caminhando pela calçada aproveitando a noite quente e a companhia um do outro. Felizes. Apaixonados. Como era bom sentir-se amados! Não deve haver neste mundo nenhum sentimento tão bom quanto este!
Atravessando a avenida, já numa esquina próximo da casa dela, Carlos segurava a sua mão carinhosamente quando foram surpreendidos por um motoqueiro que veio em alta velocidade, farol no rosto dos dois e depois, só a escuridão.
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O laudo pericial referente ao exame do local, em minhas mãos, apontava os vestígios do acidente de trânsito que vitimou aquele casal. Fechei o inquérito policial que fazia parte do meu acervo de casos e pensei que aquela bem que poderia ser a história da vida real daquele casal. Vidas reais que se transformaram profundamente naquela noite.
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Foi tudo muito rápido. Só me lembro da luz do farol que me cegou, do grito da Rosana e do impacto.
Quando recuperei a consciência percebi que estava no hospital. Levei um tempo para me lembrar do que tinha acontecido. E quando me lembrei foi desesperador. Eu queria saber da minha mulher, se ela estava consciente, se estava bem. Eu queria ver a minha esposa.
Me lembrei da aliança e a procurei em meu dedo. A enfermeira disse que precisou cortá-la, pois minha mão ficou muito inchada. Logo pensei na aliança da Rosana e torci para que ainda estivesse em seu dedo, porque sabia o quanto era importante pra ela.
A enfermeira chamou o médico e começou a preparar uma seringa. O médico entrou no quarto e me examinou. Eu queria saber da Rosana, eu precisava estar com ela assim que acordasse. A enfermeira do meu lado me aplicou aquela injeção. Fui me sentindo mole e só me lembro que o médico disse para não me preocupar com nada..
Eu queria saber da Rosana. Precisava saber da minha esposa.
O doutor, então, me pediu para ser forte e meus olhos começaram a arder. A cada palavra que ele pronunciava, eu me esforçava para não chorar, mas foi inevitável e lágrimas grossas começara a descer pelo meu rosto ferido, feito cascata. As feridas ardiam, mas o coração se despedaçou totalmente. O remédio já fazia efeito e apaguei.
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Eu estive inconsciente por mais de um mês e não pude me despedir da minha Rosana. Na noite mais feliz das nossas vidas a morte nos separou. De forma trágica, violenta e repentina. Maior que a minha tristeza, maior que a minha dor naquele momento foi a revolta que eu senti quando o médico me contou que tínhamos sido atropelados por um motoqueiro que fugiu do local sem prestar socorro.
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Os exames revelaram intenso edema cerebral, hemorragias, contusões e fraturas. As lesões cranianas e encefálicas foram extensas, graves e culminaram com o óbito. Conclusão: a vítima veio à óbito em decorrência de traumatismo crânio-encefálico. Essa foi a síntese do laudo necroscópico que juntei no inquérito policial.
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Assim que ocorreu o fato, a polícia militar foi acionada ao local por populares e, depois de colher as informações preliminares, os policiais militares informaram ao delegado de Polícia (Civil) que determinou o deslocamento da equipe de perícias técnicas ao local, dando início às investigações .
A equipe do Resgate providenciou o socorro às vítimas e os peritos se encarregaram de examinar minuciosamente o local enquanto os policiais militares mantiveram os curiosos afastados e procuraram localizar alguma testemunha que por ventura tivesse presenciado o acidente.
Tomadas as primeiras providências, o boletim de ocorrência foi registrado e encaminhado para a delegacia responsável pela investigação. Foi assim que o caso veio parar nas minhas mãos.
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Minha filha era uma pessoa muito boa. Era apaixonada pela vida. Vivia para a família e para o namorado. Era uma pessoa alegre, sempre que podia ajudava os outros. O sonho dela era se casar com o Carlos. A princípio ele não parecia que levava o relacionamento muito a sério. No começo eu não gostava muito dele, é verdade. Tinha receio por causa da Rebeca, sabe. A gente ouve muitas histórias de padrastos que abusam de enteadas, então ...
Mas, com o tempo percebi que a Rosana gostava mesmo dele e que ele respeitava ela e a Rebeca, que gostava das duas. Compreendi que era só questão de tempo para eles se casarem. Eu até torcia por isso. É porque a Rosana tinha passado por uma fase muito difícil e eu queria ver a minha filha feliz mais uma vez.
Quando o Carlos me contou que tinha pedido a minha filha em casamento menos de uma hora antes do acidente, senti uma dor tão grande, um pesar tão profundo pela minha filha ... era tudo o que ela mais queria! Mas, sua alegria não durou nem uma hora sequer! [choro contido, soluços]
Naquela noite, quando a Rosana estava de saída e me deu um beijo na testa, senti um aperto no coração. Parecia que eu estava pressentindo que alguma coisa ruim estava para acontecer.
Não consegui dormir. Eu sempre esperava a Rosana chegar em casa para me deitar, mas naquela noite, eu estava bem inquieta. Estava preocupada. Até fiz uma oração pedindo a Deus para proteger a minha filha e o namorado dela.
Eu estava terminando a minha oração quando alguém bateu à minha porta. Meu coração disparou quando vi que era um policial. Só de olhar pra ele já comei a chorar. De alguma forma eu sabia que ele ia me dar a notícia... e ele me perguntou se eu já sabia ... [choro]
Meu coração de mãe já sabia o que o meu cérebro ainda não tinha conhecimento, Eu disse a ele que sabia que alguma coisa tinha acontecido com a minha filha e perguntei a ele se ela estava bem.
Respeitosamente ele me disse que ela e o namorado tinham sido atropelados perto dali e que ambos já tinham sido encaminhados ao hospital. Pediu que eu fosse até lá e me adiantou que o estado deles era grave.
Eu já não sentia o meu corpo. Parecia que eu estava dentro de um pesadelo. O policial se ofereceu para me levar, mas eu não sabia o que fazer com a Rebequinha que dormia tranquilamente sem saber de nada que estava acontecendo.
Liguei para a vizinha e pedi a ela que ficasse em casa com a Rebeca. O filho dela me levou até o hospital. O médico explicou que o estado de Rosana era muito grave e que, caso ela sobrevivesse, não teria uma vida normal, pois foi atingida na cabeça. [choro]
Então, eu supliquei a Deus que fizesse o melhor pela minha menina. Me doía saber que ela poderia morrer naquela noite. Mas me doía mais pensar na vida de sofrimento que ela teria, caso sobrevivesse. Então, coloquei nas mãos de Deus e esperei, orando para que acontecesse o melhor para ela. E Deus achou que o melhor para ela, seria com Ele. [silêncio, dor, choro contido]
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No dia do fato, a polícia militar foi informada sobre a placa da motocicleta que deu causa ao acidente. A testemunha presenciou o acidente, mas não quis se identificar. Anotou a placa e deu todas as características do veículo, porém, não conseguiria reconhecer o condutor da moto, pois ele estava usando um capacete preto.
Essa foi a pista inicial, o fio do novelo que passamos a puxar.
Os investigadores, chefiados pelo Fernandes, identificaram quem era o proprietário da motocicleta e foram até a sua residência. No local, o suposto proprietário informou que havia vendido aquela motocicleta para pessoa desconhecida dele e que o comprador não havia providenciado a transferência do veículo para o seu nome. De fato, os tiras não encontraram a motocicleta naquela casa.
Voltaram para a delegacia, mas não desistiram. Retornaram ao local com uma viatura descaracterizada (sem o emblema da Polícia) e montaram uma campana nas proximidades daquela casa. Passaram a observar o movimento na casa só pra ter certeza de que aquele homem estava mesmo dizendo a verdade.
Outra equipe, durante aquele dia, passou a circular por aquele bairro e bairros vizinhos com outra viatura descaracterizada a fim de localizar a motocicleta.
E uma outra equipe começou a fazer o levantamento de todas as oficinas mecânicas da região procurando saber se alguém havia solicitado conserto de motocicleta com as características apontadas pela testemunha.
A campana montada até altas horas no local não deu em nada porque nenhuma motocicleta chegou na residência alvo. Não conseguiram nenhuma informação relevante nas oficinas mecânicas da região. e nem trombaaram com a motocicleta alvo.. O dia terminou em um a zero para o assassino da Rosana.
Porém, já diz o ditado: um dia é da caça, o outro é do caçador ...
No dia seguinte, os tiras continuaram com as estratégias e a equipe que circulava pelo bairro, no final da tarde ... BINGO!
Ali estava a motocicleta assassina trafegando normalmente pela cidade, conduzida por um sujeito desconhecido que estava prestes a fazer parte do meu caso policial..
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Sentado à minha frente estava um homem feito, dos seus quase quarenta anos. Cabisbaixo. Nervoso. Sua expressão séria e sisuda indicava o alto nível de sua preocupação. Era a pessoa que conduzia a motocicleta indicada pela testemunha como sendo o veículo que atropelou o casal. Portanto, tudo levava a crer que aquele seria o assassino da Rosana .
Levantou a cabeça e olhou para mim, friamente. Pude ler em seu semblante o alívio por estar diante de uma policial feminina.
Mal sabia ele que eu estava totalmente focada na solução daquele caso. Ele deveria saber que as mulheres sempre conseguem o que querem ...
Comecei o interrogatório.
[CONTINUA...]






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